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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Pesquisadores da Fiocruz identificam oito mutações no vírus da febre amarela



Cristina Indio Brasil - Repórter da Agência Brasil

Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) identificaram oito mutações em sequências genéticas do vírus da febre amarela do surto de 2017, que estão associadas a proteínas envolvidas na replicação viral. A comprovação foi feita a partir dos primeiros sequenciamentos completos do genoma de amostras de dois macacos do tipo bugio encontrados em uma área de mata, no Espírito Santo, no fim de fevereiro deste ano. Para os cientistas, as alterações genéticas não comprometem a eficiência da vacina contra a doença, mas vão pesquisar se tornam o vírus mais agressivo.

Os estudos mostraram que os microrganismos pertencem ao subtipo genético conhecido como linhagem Sul Americana 1E, que segundo o IOC, é predominante no Brasil desde 2008.
Para o chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC, o pesquisador e um dos coordenadores do estudo, Ricardo Lourenço, a condição em que os macacos foram recolhidos para a retirada de amostras foi fundamental para a identificação. Um deles tinha morrido há pouco tempo e o outro ainda estava vivo, embora já prestes a morrer. “Eles não estavam em deterioração. Isso fez com que as partículas virais que estavam nos corpos deles pudessem ser detectadas porque não degradaram”, informou em entrevista à Agência Brasil.

Ricardo Lourenço acrescentou que os animais foram encontrados durante uma pesquisa de campo com auxílio de armadilhas para coletar mosquitos na região. “Na colocação das armadilhas no Espírito Santo, avisaram para nós que havia macacos morrendo no local. Já que estávamos lá colocando as armadilhas para coletar os mosquitos, estávamos preparados para examinar qualquer coisa e coletamos o sangue, tínhamos, inclusive, gelo seco para congelar as amostras”, revelou.

A chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do IOC, a pesquisadora e também coordenadora do estudo, Myrna Bonaldo, afastou qualquer possibilidade de a descoberta comprometer a eficácia da vacina contra a febre amarela. “Não muda. É uma vacina que já está sendo administrada há 80 anos e que é muito eficaz”, contou, completando que a alteração não está ocorrendo na principal proteína viral que são as proteínas da parte exterior do vírus e, por isso, não deve tornar o vírus menos imunogênico ou não.
“A vacina vai proteger certamente. Um exemplo disso é que, em qualquer lugar do mundo em que tem variantes do vírus de febre amarela, a vacina protege com a mesma eficácia, então, em princípio não muda nada”.

Agora, os estudos vão continuar para verificar de que forma a variação pode impactar na infecção em macacos, mosquitos e no homem. Outra pergunta que precisa ser respondida, de acordo com Myrna Bonaldo, é saber se as mudanças tornam o vírus mais agressivo, no sentido de infectar mais gravemente um hospedeiro, um vetor ou um mamífero. A pesquisadora apontou ainda que, até o momento, essas alterações não foram descritas em nenhum vírus de febre amarela, quer seja os vírus da África ou da América do Sul.

“Foi bem particular o resultado. Isso não quer dizer que este vírus seja mais agressivo e que poderia prejudicar mais as pessoas. Para ter uma ideia, vamos precisar levar este vírus para o laboratório e começar estudos bem básicos, tanto em infecção de células como também infecção em alguns modelos animais, como mosquitos”, completou.

A pesquisadora contou também que, desde 2000, tem ocorrido cada vez mais casos humanos de contaminação pelo vírus da febre amarela e, por isso, houve uma dispersão dos registros da doença, que pode ser decorrente da mudança ou de baixa cobertura vacinal, porque não era uma região suscetível à infecção por febre amarela. “De certa maneira houve uma dispersão dele na natureza, uma ampliação nas regiões em que ele começou a circular em macacos e em mosquitos silvestres e depois isso acabou atingindo o homem”, disse.

Myrna Bonaldo apontou que ainda somente após a confirmação de onde e quando ocorreram as mutações é que se pode verificar se há relação com desastres ambientais. “Esse é o momento da gente estudar várias amostras da epidemia atual, com associação com amostras antigas, para a gente poder rastrear onde ocorreram essas variações e como isso se dispersou em diferentes regiões aqui do Sudeste”, acrescentou.

Na visão da pesquisadora, os estudos vão contribuir também para a adoção de medidas de vigilância sanitária. “Vamos conhecer melhor toda a capacidade desse vírus circular no Brasil. Isso pode dar ferramentas preciosas para fazer a vigilância sanitária. Prever para não ter os piores casos. Vai dar armas para saber quais são áreas do Brasil que talvez tenham que ser priorizadas na hora em uma vacinação, ou não”, afirmou.

Edição: Davi Oliveira

Agência Brasil


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Febre amarela está em situação de emergência em 64 cidades



Léo Rodrigues - Correspondente da Agência Brasil

O governo federal reconheceu situação de emergência em 64 cidades devido ao surto de febre amarela. As portarias foram publicadas no Diário Oficial da União de hoje (20) pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), vinculada ao Ministério da Integração Nacional. 

Embora situadas em regiões afetadas pelo surto, três das cidades mineiras beneficiadas pela medida, e que são sedes regionais de saúde, não têm nenhum caso confirmado de febre amarela. Conforme o último boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde de Minas Gerais, divulgado na sexta-feira (17), Coronel Fabriciano, Governador Valadares e Manhumirim contabilizam juntas sete casos em investigação e três foram descartados. Também não há mortes suspeitas entre os moradores destas cidades. Por outro lado, como são municípios mais estruturados, suas unidades de saúde estão recebendo pacientes de cidades vizinhas.

De acordo com o Ministério da Integração Nacional, entre os critérios para reconhecimento da situação de emergência, estão a dificuldade no controle da doença, a existência de danos humanos consideráveis e a possibilidade de se normalizar a situação a partir do apoio complementar dos governos estaduais ou federal. No início do mês passado, o governador mineiro Fernando Pimentel também havia decretado situação de emergência em saúde pública em uma área que abrange 152 municípios.

Outro município de Minas Gerais com situação de emergência reconhecida pelo governo federal é Teófilo Otoni (também é cidade de referência), que tem nove confirmações para a doença e mais 24 casos em investigação. O município também confirmou sete mortes por febre amarela e há mais 17 sendo analisadas.

Próximos a Teófilo Otoni estão as duas cidades com maior quantidade de óbitos confirmados. Ladainha, a cerca de 70 quilômetros, registra 12 mortes por febre amarela. Em Itambacuri, distante 35 quilômetros, oito vítimas morreram em decorrência da doença.

Além das cidades mineiras, o município capixaba Ibatiba também teve reconhecida a situação de emergência. Não há nenhuma confirmação da doença entre seus moradores, mas há oito casos suspeitos e, em cinco deles, os pacientes estão em estado grave.

As portarias listam as cidades de Coronel Fabriciano, Governador Valadares, Manhumirim e Teófilo Otoni, em Minas Gerais, e Ibatiba, no Espírito Santo, para que solicitem apoio emergencial para ações de socorro e assistência à população. No final do dia, o Ministério da Saúde informou esses municípios são sedes das unidades regionais de Saúde, que abrangem mais cidades com casos registrados ou suspeitos de febre amarela.

As cidades em situação de emergência são: Água Boa, Aimorés, Alpercata, Alvarenga, Bom Jesus do Galho, Caraí, Caratinga, Chalé, Conceição de Ipanema, Conselheiro Pena, Coronel Fabriciano, Durandé, Entre Folhas, Espera Feliz, Frei Gaspar, Frei Lagonegro, Governador Valadares, Imbé de Minas, Inhapim, Ipaba, Ipanema, Ipatinga, Itaipé, Itambacuri, Itanhomi, Itueta, José Raydan, Ladainha, Lajinha, Malacacheta, Manhuaçu, Manhumirim, Martins Soares, Mutum, Nanuque, Novo Cruzeiro, Orizânia, Padre Paraíso, Peçanha, Piedade de Caratinga, Pocrane, Poté, Reduto, Resplendor, Santa Bárbara do Leste, Santa Maria do Suaçuí, Santa Rita de Minas, Santa Rita do Itueto, Santana do Manhuaçu, Santana do Paraíso, São João do Manhuaçu, São João da Manteninha, São João Evagelista, São José do Jacuri, São José do Mantimento, São Pedro do Suaçuí, São Sebastião do Maranhão, Setubinha, Simonésia, Taparuba, Tarumirim,Teófilo Otoni e Ubaporanga.

Dados

A Secretaria de Saúde de Minas anunciou que passará a divulgar boletins epidemiológicos apenas duas vezes por semana, às terças-feiras e às sextas-feiras. Até agora, segundo os dados da semana passada, Minas Gerais soma 1.012 notificações para febre amarela. Destes, 57 foram descartadas e 220 são casos confirmados. As mortes que tiveram confirmação para a doença são 78. Mais 96 mortes continuam sendo investigadas.

A febre amarela é causada por um vírus da família Flaviviridae e ocorre em alguns países da América do Sul, América Central e África. No meio rural e silvestre, ela é transmitida pelo mosquito Haemagogus. Já em área urbana, o vetor é o Aedes aegypti, o mesmo da dengue, do vírus Zika e da febre chikungunya. Segundo o Ministério da Saúde, a transmissão da febre amarela no Brasil não ocorre em áreas urbanas desde 1942. Até o momento, nenhum dos casos em Minas Gerais são considerados urbanos pelos órgãos públicos.

O surto atual já registra casos confirmados em 42 municípios mineiros. Em mais 84 cidades do estado há pacientes com suspeitas. A principal medida de combate à doença é a vacinação da população. O imunizante é ofertado gratuitamente nos postos de saúde por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). A aplicação ocorre em dose única, devendo ser reforçada após dez anos. No caso de crianças, o Ministério da Saúde recomenda a administração de uma dose aos 9 meses e um reforço aos 4 anos.

* Texto e título alterados às 20h35 para retificação de informação fornecida pelo Ministério da Saúde

Edição: Fábio Massalli

Agência Brasil